Lírica Etílica
sexta-feira, abril 28, 2017
  Grave esse dia
Hoje é dia de greve.
Greve geral, total.
Que tudo pare
o tempo, corpos celestes,
Deus em seu banheiro privativo
Em um paraíso-condomínio particular.
Que a convulsão seja
um momento de comoção, conversão
de males unidos
em um fim dado,
uma movimentação
para um novo paradigma total
de quem faz o mal
e o que é o bem.
Grave esse dia.
não pelo o que ele é
ou será.
       pelo que devia ser.


Ainda que eu não acredite no futuro desse país, ou qualquer outro país. O mundo é feito de idiotas. Creio que não seria tão ruim, e apenas isso, não tão ruim, se houvesse um novo senso comum ao pensamento coletivo e individual, um senso de que todos são idiotas. Eu rezo por esse momento para o deus dos ateus.  Rezo que as pessoas parem de ler livros de auto-ajuda e o biografias de supostos gênios infalíveis. - Não, Steve Jobs nunca foi tudo isso. O Bill Gates roubou o ladrão, mas todo dia isso acontece na prisão. A Madona não seria o que ela é se tivesse nascido no Brasil e jamais tivesse acesso a fábrica de celebridade globais que é Manhattan. Convenhamos, até o lixo e a estética marginal novaiorquina foi exportada como artigo de luxo, ou você conhece um Basquiet do pixo em Sampa? O funk carioca jamais será cantado em Aramaico, tal como o RAP do Brooklin. -Ninguém é tão bom assim, a condição social apenas permite que as pessoas atinjam ou não suas potencialidades. Alguns com potencialidades enormes e em condições excecionalmente propicias não chegam a nada, enquanto Thomas Edisson, sem nunca ser genial (Posso estar equivocado, caso teimosia seja considerada genialidade), é o pai da nossa sociedade elétrica. No final esteja ciente: é tudo acaso e ocaso, um dado caindo do espaço profundo e atingindo a terra destruindo e criando vida.

Mas e ae? E ae nada. Esses livros-documentários-conversas no metrô sobre como devemos ser perfeitos (ou somos) são apenas lixo otimista. Lixo que nos impedem de observar a realidade. Uma realidade bem simples: Sim, somos todos idiotas. Estamos só apenas a um instante de fazer aquela cagada monumental que nos fará sermos lembrados como os idiotas que sempre fomos. Aquela cagada sem volta que fazem as pessoas relembrarem e buscarem momentos nossos. Fazem a sociedade iniciar uma busca por indícios de que iriamos fazer isso, iriamos fazer uma merda monumental, destruindo a nós e outros que estavam perto demais. E sim, eles, esses momentos, sempre estarão lá. Estão e estarão porque somos idiotas, cometendo pequenos, ou grandes, deslizes diários, deslizes que acabam sem grandes consequências ou sem grandes atenções, mas invariavelmente cometendo.

E o pior, cometendo atrocidades e fingindo que somos perfeitos, afinal, o inferno são os outros. Fingindo que não somos nós, esses seres sociais, agentes-células desse corpo social que nos une em um equilíbrio estável delicado sempre a um passo de convulsionar em destruição e aniquilação mutua: "Nós não somos responsáveis". É sempre o vizinho, o político, o profissional dá profissão que não é a sua, ou os maus profissionais da sua área. Alguém, um qualquer, um passante na rua em um momento de distração. É sempre alguém que não eu. Em quem minha culpa cair.

E vamos todos juntos amarrados por grilhões de celulares, estradas, palavras e meios que nos tornam mais do que mentes presas em corpos separados, vamos juntos nesse ciclo de desgraça e tristeza mutua bom o suficiente apenas para sua preservação eterna.

Grave esse dia, torça que ele seja um momento de mudança para algo melhor. No final será para geral.
 
segunda-feira, abril 24, 2017
  Quem sabe um dia eu volte
Eu prendi meu coração em uma caixa de papelão e a escondi num limbo existencial onde perdemos palhetas, pares de meia e moedas de 5 centavos. E no começo foi bom, me deu estabilidade, me deu paz emocional, me deu equilíbrio para lidar com os sentimentos estranhos e frustrações da idade. Com os amores tristes, as amizades distantes, sonhos quebrados e descobertas de limitações físicas, intelectuais e emocionais.
E durante um tempo foi bom, mas depois de um tempo deixou de ser.
Depois de um tempo eu deixei de ser, deixei quem eu sou e virei involucro oco. Deixei de sentir qualquer coisa que não fosse uma ausência continua e melancólica. Uma espera vazia na fila do banco.
E antes disso era bom, realmente era. E eu fiquei satisfeito. E eu pensei que poderia ser assim. E que eu poderia morrer, sem suicídios dramáticos, mas apenas morrer um dia sem perceber, sem notar a vida passar, sem ligar. E talvez eu estivesse certo, ainda que só em parte.

Lembro-me de quando visitei a psicologa junto com a Jaqueline. Ela, a psicologa, me disse a vocação, a palavra, tinha uma origem latina e significa em sua origem uma expressão: A voz que vem do coração. Que era ela, a vocação, que nos movimenta, que nos põem a fazer, é o motivo das coisas. Um sopro divino mesmo para os ateus. Aquilo que nos faz mais do que engrenagens de máquinas ocas e dadaistas.
Eu perdi minha vocação, perdi minha oração, perdi a ação, até mesmo a perdição.
E tudo bem.
Se eu reclamo, não é do bom ou ruim, reclamo do nada, do nada que falta e faltando me tira as palavras, as rimas, a cacofonia de sons e tesões, me deixando um vazio, crescente e contínuo, forte e devorador de tudo que sejas cordas, sopros, impulsos, combustíveis, analogias ou metáforas que digam sobre as coisas essas que nos impedem de simplesmente parar e assim permanecer até virar-se o em-si.
Eu reclamo, pois noto um fim em vida, fim melancólico de vela que teima em apagar mesmo com comprido pavio e fonte de fogo suficiente. E nisso aponto enquanto ainda posso, enquanto ainda ligo, me forçando a escrever sentenças vazias de objetivo, implicações ou consequências, escrevendo em qualquer lugar. Para marcar enquanto eu ainda tenho vontade o suficiente para isso: Eu estive aqui. Por um momento, ainda que pouco, eu me importei.
 
terça-feira, outubro 07, 2014
  oração
Sangrei um pouco
                   monte

Chorei um monte
                  ontem

Fugi um dia
               ida

Tentei pesar-me             
em todas as canções do Itamar Assunção
e viajar para Assunção.
Me perder na América do sul
e encontrar-me em meu peito.
        ou aprender a ser sujeito
                            estar sujeito
nas falhas do meu coração.

           Só me diz
um dia
           como todos dizem
que  alivia
           qualquer um pode
           ser feliz


  


               
 
sábado, junho 28, 2014
  Carta de despedida
Eu peço desculpas a todos; me despeço; Me despedaço. Aos que decepcionei, aos que amei, e qualquer um que esperava de mim qualquer espécie de atitude que não isso.
Me queimem em uma grande fogueira junina, e junto ao meu corpo todas as minhas coisas, e as minhas coisas com todas nossas memórias.
Me aqueçam e esqueçam, no fogo do tempo voltar a ser somente pó, e nas estrelas nos reencontrarmos novamente, como foi no principio. Em paz
 
sábado, maio 31, 2014
  falando para Isabela de um tema que eu pedi e ela nunca escreveu
Todos os dias...

-

Não.

-
Todos os dias é uma hipérbole. Apesar de que, para mim, isso pode apresentar um tipo de segredo.



Um bem singelo, sucinto, como um beijo de despedida que encosta no canto do lábio, passando pelo calor discreto quase canção suave amargo-café praia-inverno pela voz do Marcelo Camelo no álbum 4 do Los Hermanos. Tanto contido no que deveria ser mínimo, como o instante cosmo onde o marcante milésimo ocorre.

-

-


Um sonho sempre se torna realidade.


 -

-

Sem ser hipérbole, sem ser exagero, só um trato retrato da realidade. O sonho é uma possibilidade, assim como beijo de canto-canção, o sonho é o infinito e universo em expansão.

E ele se torna sempre real, como confronto e fracasso, ou realização e perda mística.  Meu sonhos se tornam realidade diariamente, quando ele se confrontam como o que é, e se ainda nesse ser, deseja se tornar sonhar.

O sonho é a canção que fica na cabeça, mas tocando, finalmente, no rádio, fugindo daquela experiência de ser em nós, tudo, pois é nós, parte ocupante tão profunda da nossa identidade que nos separando dele deixamos de ser quem somos.

É Isabela sem Cinema. Ou isabela no cinema onde não existe Isabela.

Um sonho é nós, e nós somos um sonho, efêmero, frágil, discreto e impossível, diante tanto possibilidades de jamais ter tido nós existência. E ainda assim, um sonho que existe possibilitando e multiplicando por todos universos.


----


Meu sonhos são realidade agora
Meu emprego como designer, minhas criações gráficas conceituais tendo alguma função na sociedade
Minha banda que nunca foi para frente
Minhas canções que ninguém nunca ouviu, ou tocou, ou mesmo quis ouvir
Meus projetos literários, blogs, poemas
Meus desenhos na gaveta, em cadernos, bolsas, lixos
Meus projetos de casas, de vida, de estudo, futuro, amor, casamento, solidão
Meu dinheiro no banco, e falta do meu dinheiro no banco
Meu adquirir conhecimento sobre áreas diversas como cinema, música, literatura, ciências sociais
Meu conseguir paz, fúria, explodir, dormir
Minhas paixões, não correspondidas, que eu não correspondi
Meu falar inglês, não tão bem
Meu aprender espanhol, nada bem
Meu ser um pessoa melhor e feliz, nada
Meu nada
Meu tudo

Todos são realidades com qual
ou me confronto ou deleito
e sorriso e choro
e abraço e enfureço
sinto falta sinto pena

E volto a sonhar, negando regando a realidade, para novos futuros sonhos reais.

----


Sei lá. Eu sou meio-um Peter Pan fracassado, vou lidando com meus antigos-atuais-futuros sonhos.
 
quinta-feira, maio 29, 2014
 
O que disse foi de cortar o coração
mas somente alcança pulsos, a faca,
disseram que ela não tinha vocação.
 
domingo, maio 11, 2014
  ( de vez em quando liberamos os rascunho presos )
Parei de sangrar as palavras, faz algum tempo, agora as rasgo como papel vagabundo, panfleto de plano de saúde para aposentados distribuídos a tarde em uma rua central, pois são assim lidas, pensadas trans-passadas, a própria insustentabilidade de nossa comunicação.

Somos a humanidade em silencio, transito sem sinalização, acidentes somatórios que se perdem na própria insignificância perante os números de vitimas agonizantes. As palavras escorregam para fora, mas são um meio ineficaz e monótono, emulam e perdem ao abraço, ao beijo, a trocar de olhar, ao punho em agressão, perde ao movimento de ataque, esse resto que trata da comunicação dos brutos.

O esgoto que tinge o asfalto furado e decadente que faz do caminho um terremoto, esse é a água da qual bebemos. Merda, urina, pedaços entulhos, ratos mortos que alimentam as tardes, preenchem a noite em orgias incestuosas que povoam o globo. Há um tanto de vomito nesse nojo, nesse mundo que flutua no poço de corpos aberrações e almas deformadas que fazem o mar de atribulações do cotidiano. Poucas coisas são de valor incorruptível, poucas bocas geram paixões, de resto são corpos lascivos, vulvas expostas, caralhos em excitação, seios rasgados pescoços erupções, buscando ilusões no vício mentira de termos algo que possa ser mais longo que o instante em sensação.


Eu não sei me apaixonar....
 
  Quase um filme do Jan Svankmajer
Eu tive um sonho.

E se

As pessoas que passarem pela sua vida tivessem a capacidade de se transformar em fantasmas, mesmo que ainda vivas.

Tipo
 
Como entroncamentos de sombras, gerando trilhas que te impedem de  movimentar livremente. Te bloqueando outras paragens.

Mais ou menos

Como se fosse gravações de conversas e momentos esquecidos do passado em algum local do seu mundo. Se reproduzindo continuadamente, provocando ruídos em cada papo que tenta desenvolver

E se

Aquela conversa profunda de uma vez no domingo no parque gerasse outras tantas conversas repetições da primeira, que te impedem se continuar.

E se você gago com tudo isso virasse também o sombra de si, um estátua que se segura.

O que significaria?



 
  Carta aos passageiros desta longa viagem
E na hora da verdade? Você chora ou assusta? Sai gritando ou bate no peito receoso e dizendo alguma coisa que depois não vai saber explicar? Do mundo possuo apenas a dúvida, esta que se fragmenta em cada pequena peça do quebra cabeça que chamamos tudo.

E sou uma peça em alguma parte, deslocada no meio do nada, sentindo falta das que deveriam estar ao meu lado.

Mas não é disso que penso muito, eu penso naquelas que estavam aqui, completando um quadro e uma imagem, e mesmo assim se foram, de um jeito bom ou também de um jeito ruim. Penso em todos aqueles que fazem falta, que nos fazem chorar e afundar no mar de tanto os pesares que nos impede nadar;

Há aqueles que foram viver outras histórias e sua distância é tão próxima, mas também fria. Há aqueles que foram viver em outros locais e suas distâncias são longas, mas quase inexistentes no carinho amigo; e aqueles que voltaram a ser apenas o pó das estrelas e vivem somente dentro de nós.

Eu poderia afirmar uma porção de coisas, todas elas sabiás e verdadeiras, ainda que somente para mim. Mas não, não afirmo nada, ainda que o finja fazer diariamente. Eu apenas existo, e existo junto com minha dúvida, apenas pensando que meu maior consolo para esta dúvida seja guardar comigo eles e as dúvidas deles também.

Se o sol sempre vai raiar, ou se a chuva cai suave e raramente no frio de junho. Se deus existe, ou se estamos todos perdidos abaixo da linha do Equador. Se um sorriso faz tudo mudar de perceptiva, ou se estar com eles era o melhor dos abrigos.

Todos aqueles que passaram e deixaram um abraço, um sorriso, um carinho, ou somente o sentimento bom, me lembrando, sempre: Felipe, eu existo para você, em você e com você.
 
sábado, abril 12, 2014
  Papo com Isabela kayo
Lar? Eu acho que consigo partir para essa idéia partindo a idéia.

"Lar", a palavra, meio que significa no uso mais diário do jornal, da mercearia, do papo de ônibus e Facebook messenger, algo como um local onde dormimos e nos sentimos íntimos e a vontade. Será? Eu sempre me pergunto...

Eu penso com carinho na palavra. No parte fragmentada dela, e na união. Eu consigo enxergar partições, o "lá", e o "ar".          Láar.         O lar é o lá cheio de ar!? Onde respiramos, um local de respiração; quando entre um fôlego e outro das complicadas e potentes necessidades da vida, tomamos ar. Faz sentido?

Eu gosto de pensar assim.

o lar é uma caverna.
é uma pessoa.
um dia frio de inverno.
estar boiando na água olhando para o céu de um azul único e vibrante.

O lar é um local, talvez, porque não existe no tempo. O lar não acontece, pois sempre é. Um atemporal, nesse sentido bonito e gostoso que você diz que parece que o tempo não passou. Porque não existe como acontecimento, só estar; existir e sempre ser. Acho que o lar deixa de ser, quando acontece. Tipo... um abraço sem tempo, deixa de ser lar quando notamos o tempo passar, pois é o fim daquele momento-pausa onde o ponteiro do relógio que faz o mundo correr simplesmente para.

O lar é quando eu não quero sair, nem deixar de sair. Pois no lar só estou em paz. talvez, e somente talvez, isso pode explicar porque o lar é visto por tantos como refúgio. Tradição talvez porque as pessoas não se dedicam a mudança, pois o lar é estático. Não justificando, mas tentando entender isso... sabe?

Acho que isso conversa com o final do seu texto. Aquela parte do: todos são ao mesmo tempo ou não são nenhum.

O sentimento de lar.

Acho que a pergunta no sentido que eu quis dizer foi "Onde você está lar?"
 
terça-feira, março 11, 2014
 
Dias rápidos e insensíveis.
O coração aperta sem atenção,
apertam mais os horários
 
  Por quê?
Acordar, partir. E a vida que ocorre no espaço depois da vírgula. É assim que se sente o Antônio e provavelmente, outros além dele. É assim que ele percebe a vida, marcada como os períodos fugazes e tão tocantes que ficam entre os dois momentos que norteiam e dão ritmo ao que é de regular da existência das pessoas que dormem e acordam, e vice-versa.

A pasta de dente caia sobre as cerdas da escova de um modo hipnotizantes nas últimas semanas, ele reparava nisso enquanto movia lentamente a escova para os seus dentes. Não olhava o ato mecânico e automático do seu escovar, focava sempre na luz que iluminava e revelava pequenos flocos de poeira que flutuavam no ar. O espelho mostrava seu rosto cansado, marcado, sua pele mancha, ressecada, sua barba por fazer e também seus olhos de cego olhando para o sol. A escova passava por seus dentes e seu interesse ficava somente na poeira que dividia o banheiro com ele. Por que ele escovava antes de comer? Nunca soube responder. Saia sempre com os dentes sujos para andar na rua. Com mal hálito? Com pedaços de comida entre os dentes que amarelavam?

Deve ser sábado, - ele pensa confuso - por que eu acordei tão cedo? Os dias do calendário são tão tristes, ele nunca combinam com minha alma. Hoje acordei com espírito de quinta, e todos lá fora me esperam para o sábado. Não sei o porquê de sair, nem para que continuar levantado, com dentes de sujos e pedaços de comida entre os dentes.

Decidiu assim voltar para cama e apagar de novo, pensando na poeira tão leve iluminada e levada pelo sol. Ela flutuava sem preocupações, sem acordar ou partir, mas também sem os espaços com acontecimentos tão leves, quanto notar que ele também estava ali.
 
domingo, dezembro 29, 2013
 
Antes que eu houvesse dado o primeiro passo muito caminho já havia sido percorrido. Quatro anos é apenas um pedaço do que eu sou, uma história tragicômica, um beijo mal dado e todos desentendimentos leves de papos descontraídos. Quem deu os primeiros passos por mim foi o universo que tudo fez, foi o surgimento desse pequeno planeta repleto de água, foram os aminoácidos complexos, foram os céus, terras, mares e uma rapidinha entre meus pais. Eu sou muito desse figurante nessa história de tudo, com uma vida média e mediana, com falas que fazem toda a história desse algo em que todos nós estamos inseridos.

Eu sou o bar de sexta-feira, a risada safada na cama, sou o sol de manhã, a chuva da tarde, a eletricidade que acaba no horário de expediente, o sexo de adolescentes virgens, o sexo do amantes octogenários, sou você sorrindo, e chorando, e pensando em ser eu. Sou apenas uma pequena parte relevante e tocante nesse espaço em que atuo e influencio, nesse história onde nos encontramos e nos tocamos. Antes que tivesse dado o primeiro passo já estávamos aqui, eu ao seu lado e você ao meu, unidos intrinsecamente em todo o destino de sermos parte disso que de vez em quando notamos ser a vida.

E eu agradeço o privilégio e vantagem, de estar aqui, mesmo sabendo do logo-partir, pois só sou e me reconheço enquanto algo que é e acontece te vendo acontecer, pois somos iguais na partes em que assemelhamos e iguais nas partes que nos diferenciam. Eu sou você na exata medida em te assemelho e sou eu na exata medida em que me diferencio, e então dou o primeiro passo para te encontrar e me unir a você..
 
quinta-feira, setembro 26, 2013
  Desabafo
Quem está tendo sorte na vida? Ou competência? Quem acorda os dias angustiados e logo se assossega de pensamentos bons? Os dias estão sendo difíceis, passando pesados e vagarosos. E Eu? Vou sempre me sentindo incompetente diante dos desafios, da propostas, das ambições e desejos. Sempre recebendo frutos murchos e podres das boas ações que busco cultivar com atenção e carinho.

A vida não é assim tão cruel, não é assim tão difícil. Nós somos difíceis. Nós, aqueles que desejam e vivem desejando coisas. Carros, viagens, pessoas, promessas, conquistas e tantos objetos materiais ou objetivos intangíveis. Mas o mundo não é só tristeza e infelicidade, ou felicidade e deleite, o mundo, universo, espaço, como eu me sinto, é tudo ao mesmo tempo. De modo que o doce trás consigo um amargo equivalente. Talvez, ainda que eu não tenha certeza dessa afirmação

O problema, no entanto, é que os olhos são nossos e não do mundo. São as pupilas dilatadas e atentas do cotidiano que dizem: Desilusão. Não o que são os pequenos passos ao sair do ônibus em direção ao trabalho, mas sim como os veem. Sãos essas pupilas suadas de lágrimas e chuva ácida de cidades latinas e europeias que focam. Os passos são os mesmos, os olhos que mudam.
 
 
Já viram o filme do Pollock?

Recordo fácil de uma cena/passagem,  recordo do momento onde uma personagem qualquer falou ao ator do Pollock que um quadro que estava sendo admirado havia azul demais. Este retrucou, mas se deu fácil por vencido, acrescentando que pintaria outra cor para sumir com o azul. A personagem o fitou, esperando enquanto Pollock observava a tela com uma mão segurando um pincel borrado em outra cor qualquer.  A mão soltou e o pincel foi abaixo enquanto o pintor olhou desolado sem poder alterar sua peça; A personagem elogiou a integridade do pintor...

Já passaram por isso? Criar uma obra sua e quando esta confrontada pela realidade, pela necessidade, o mundo e toda a sociedade, te provoca unicamente como reação um sincero e involuntário: Dane-se a realidade.

 Acho que isso é Narcisismo. 
 
quinta-feira, setembro 05, 2013
  Nascimento em dias de cimento.
Eu nasci numa sexta feira 13 em uma manhã triste de inverno. Me disseram ao completar a maioridade que todos os dias de inverno são tristes, no entanto creio que os dias não são dotados de humores, ainda que os sentimos por eles.  E a tudo isso afinal, acho que devo a minha sorte.

Parece pouco para quem está de fora. Em verdade assumo, para quem é de fora é pouco. Nós que estamos dentro choramos a sorte. Pensei comigo mesmo. "Quantos nasceram em mesmo horário e dia que eu." Na china talvez existam alguns. Um europeu perdido e triste, um hispânico exilado na América. Um japonês pensativo, um daqueles que não passou no vestibular. Lembra-me aquelas brincadeiras de palito; varetas coloridas, compridas e esbeltas. Alguns palitos caem por cima e saem fáceis, enquanto outros ficam por baixo esperando o fim da brincadeira. Em geral nunca chegamos neles.

Sei que há sortes piores. Poderia ter nascido mulher, negra, pobre e nordestina em uma metrópole do sul ou do norte, mas nasci apenas em uma manhã invernal de sexta feira 13. Há sortes que são piores e outras apenas doem mais. Como corte de papel no dedo ou bater os dedos do pé na ponta do móvel da sala de estar. Flores! São flores caindo de árvores mortas como nossos nascimentos, pessoas tristes e sem vida. Minha mãe reclama que poderia ter dado a luz em dia melhor. Penso o mesmo, poderia ser outra pessoa nascida em dia 14 ou de sorte 12. Quinta feira 12, manhã ensolarada de inverno, 20ºC. Gostaria dessa sorte. Me parece mais bela, singela. Poesia discreta de um nascimento não cesariana. Minha mãe aponta a barriga falando que eu acabei com ela, pois não queria nascer de parto normal. Pode ser verdade, quem gostaria de nascer em tal dia?

Meu irmão nasceu dia 6 de fevereiro. Um dia de verão, um dia ensolarado, com temperatura média de 26ºC. Teve um parto normal e razoavelmente fácil, nascendo com 3 quilos e meio. Cresceu e se tornou pessoa de aspecto soturno, sombrio e melancólico. Nascendo quase no carnaval e ainda conseguiu desenvolver um aspecto cabisbaixo. Meu irmão me causa admiração. Queria eu poder dizer que quando eu nasci o céu se abriu, mas eu não posso nem dizer que chuva começou ou acabou. Nascia sexta feira 13. Um dia de inverno, dia nublado de neblina forte, com temperatura mediana de 14ºC. Frio como o inferno em dia de piada. Nasci com 2 quilos, quase não nascendo. Poderia não ter sobrevivido, mas a sorte do azar de nascer dia sexta feira 13 é viver disso.

Minha mãe ainda diz que foi um dia triste para se ter um parto, meu pai também concorda. Meu avô, que Deus o tenha, também dizia o mesmo. Alguns amigos disseram que em alguns lugares e para o Zagallo, o número 13 é um número de sorte, mas eu também fiquei sabendo que o Zagallo estava no maracanã quando o Brasil perdeu para o Uruguai em 50. Então, para mim, ele não entende de sorte. Se bem que eu nunca entendi como sexta feira pode estar ligada a falta de sorte, afinal, é quando se acaba a semana em seus dias "úteis". Mudanças, alivio, oportunidades, diversão... No entanto, pensando bem, faz sentido. Era Sexta feira 13 e para mim estava apenas começando.
 
segunda-feira, julho 01, 2013
  Paixões
Eu lembro de uma menina que usava batom com 5 anos, por minhas memórias ela foi a primeira, logo em seguida a Camila na primeira série. Na segunda série eu gostava da Darlene, mas ela já havia namorado.
Eu gostava da Emily, filha da Isabel, mas achava mais bonita a sua prima, que hoje eu não lembro nome.

Houve uma época que gostei da filha da amiga de minha mãe. Ela era mais velha, e lembrava a Mandy, da série animada "Billy e Mandy". Esqueci seu nome, mas era ela filha da Luciana, que era o nome feminino do meu pai.
Eu lembro que na infância eu gostei da Luana, que foi minha grande paixão de 13 anos, e ainda na escola eu tive sentimentos pela Hilda, um gentil e inteligente descendente de japoneses.
Houve a Bárbara Miranda, que achei bonita, mas depois todos acharam também. Depois de ter fortes sentimentos pela Luana, conheci uma pequena mestiça chamada Michelle, seus olhos brilhavam escuros e nela eu via a lolita, apesar de ter 14 anos. Junto a ela houve uma pequena queda pela Emily, outra descendente de japoneses, coisa que hoje imagino ser ainda reflexo dos sentimentos pela Hilda.
Durante um tempo eu gostei da Ilieda, mas sem perceber na época, que talvez tenha sido a primeira queda onde eu realmente era próximo a pessoa.
Na ETE, primeiro tive uma queda pela Amanda, que foi pequena paixão de todos, em seguida a Vanessa, que era muito querida. Gostei da Gabriela e da Ariane que apenas na internet conhecia. Terminei namorando a Juliana, que acabei por me apegar. Enquanto variava em meu apego pela Samanta. Logo após conheci a Drielle e em seguida a Jaqueline muita coisa ocorreu, e acabou como se não houvesse ocorrido.

(Trecho censurado, muito recente) Perdões peço as dores passadas de sentimentos que não são lembrados, as garrafas esvaziadas sem homenagens e as angustias adolescentes de quem não aprendeu bem a ser um homem, estamos todos tentando.


 
terça-feira, junho 11, 2013
 
escrever sem ver
crer sem escrever
perceber o mundo sem palavrar é sentir o mundo em magia,
o universo tem provas em mim, assim como tem um sonho palavras escritas
se sonhar é viver o escrever me parece como o constatar com o tato no rosto da brisa leve que bate vindo do mar
 
quarta-feira, abril 17, 2013
 
pois chorar também é orar.
 
domingo, fevereiro 03, 2013
 
Hoje eu vi um gato morrendo. Logo após acordar. Após colocar os curativos em minhas feridas abertas. Um pouco depois de escovar os dentes e perceber que minha gengiva sangrava. Comi sem fome uma fatia de pão integral e bebi achocolatado. Odiei o motorista do ônibus com suas curvas acentuadas e agressivas. Acordei após o banho arder nos meu pontos. Sentei no banco apertado e senti o plástico industrial ralado e sujo contrair minha gordura abdominal. Pensei nas idosas que tentavam se segurar enquanto o motorista acelerava de modo inapropriado. Odiei os velhos que pegavam o onibus de graça indo a lugar nenhum e me atrasando para o trabalho. Mas acima de tudo, odiei ver aquele gato morrendo.

Hoje o dia foi assim. Com o sol nublado e um gato convulsionando na rua meio a seu sangue. Um gato agonizando enquanto a vida morria com ele e seu olho direito que raspava em contato com o asfalto quente do verão de janeiro de 2013 em Santo andré, no bairro alvorada. Um peso pareceu se depositar sobre meu peito e todos pensamentos ruins sobre a vida, a sociedade e humanidade circularam caóticos em minha mente se atropelando como imagino que aquele gato havia sido atropelado. De maneira insensível e estúpida. De maneira absurda e alucinógena. 5 ou 8 segundos, foi esse o tempo em que vi a cena. Um carro parado esperando para conseguir passar a poucos metros do animal, que se contorcia robóticamente. Um corpo em fim de vida largado no chão sujo de óleo e lixo.

Chorei, quis descer, pegar o animal no colo e salvá-lo, morrer com ele. Explodir o mundo, o onibus, meu trabalho e a engenhosa rotina de tudo que fez daquela morte o comum. O mundo refletiu naquela movimento convulsionado como retrato do que é. Um caminho ilógico e tão doloroso ao nada. Nossa fragilidade invencível em tentar não morrer. Não morrer para o ódio, a intolerância, a indiferença, ignorância, infelicidade e efêmeridade. Eu era o gato. Todo o universo era o gato. Toda a pequena parte do todo mostrando todo seu final e a luta agonizante de sobreviver enquanto o provável é a morte. Mesmo sendo a vida improvável, vivemos negando a morte, e chorando a derrota daqueles que não podem mais negar.
 
sábado, janeiro 26, 2013
  Mantra número 1
Tem que ter leveza no coração, falar que sim como se dizendo não. Saber abrir os olhos para a alegria de se estar bêbado na esquina da Av. Lucas Nogueira Garcez com a Rua Java enquanto a lua desce pelo horizonte abrindo espaço para um sol que avermelha as nuvens que nos pingam de um garoa gentil e afável.

Tem que saber sorrir das ofensas dos motoristas e dos travestis que se direcionam para casa às cinco e meia da manhã. Saber levar na boa os passos tortos agarrados aos passos dados com os amigos com que compartilhamos as garrafas. Gostar da companhia e das piadas maldosas que somos nós massa orgânica tão estável quanto um amontoado de esterco, e ver então que o mundo é lindo milagre de uma tarde embriagada, pois, pensando bem, não difere muito de passo bêbado de um deus louco, como um sorriso soluço de pinguço fedendo a álcool as três da manhã. Pois o mundo pode ser visto também como um alcoólatra inveterado que incomoda aos passantes trabalhadores de uma segunda apressada nos dias de fevereiros.

Tem que saber perder contente, perder os dentes e mesmo os entes queridos, ser feliz mesmo doído. Porque ser feliz não é ruído, mas algum tipo de vício incontido que buscamos em satisfação. Leve como bater papo no bar discutindo algum momento discreto onde por magia do dia captamos essa leveza mística de estar em tudo e tudo ser parte de nós, algo que por vezes deixamos escapar nos passos pensando de modo extenuante.

Tem gostar do abraço discreto após o serviço, saber ter desejo no acariciar de cabelos da nossa menina, pular de cabeça em uma piscina. Tem que deitar e dormir no parque, comprar pães franceses e se demorar no café. Para os homens uma amável mulher, um sol suave no fim da tarde e uma poesia de Ferreira Gullar, pois antes que tudo acabe, tem que aprender que é fácil ser feliz. 
 
segunda-feira, janeiro 21, 2013
  O que os dias nos dão
É de aprender a chorar a técnica. Saber assoar o nariz e esfregar os olhos fingindo doença. Não dar uma misera lágrima aos tolos. Não se dá ouro aos touros. Saber segurar em desapego a dor que esvai em um grito oco e mudo na alma da gente.

Saber chorar é fingir-se forte, de aço e conhecimentos maduros. Saber fazer piada do ódio e da agonia de todos os dias. Saber dar murro em ponta de faca para evitar fraquezar. Não se dá lágrimas aos pedintes, nem se faz amigo em mugido.

Olhar no espelho e ver o que todo mundo sabe ao se olhar no espelho também. Que os dias são duros, as misérias são muitas e os sonhos brisas leves que desaperecem na turbulência do sono, ou algo bem parecido com isso, pois são choros as palavras e os sinais. Só as entendem quem as profere, só as sente quem as disfere. Pois o choro é também a língua da dor, como por vezes sinto o sorriso língua do amor.

Aprender a chorar é como aprender a falar. Dá apenas para dizer de fato que entendemos a falar no silêncio do nosso calar. 
 
sábado, novembro 24, 2012
  Mário de Andrade - Losango Caqui
Mário de Andrade - III

-Mário de Andrade!
-Ah...
Me lembrava daquela cara olhos cabelos,
Daquelas mãos um dia cheias de amizade pra mim...
No entanto era um desconhecido.
-Faz tantos anos, Mário...
-Meia-Dúzia, foi em 1916.
-Tive notícias de você...Pelos jornais. Tenho seguido
-Ahn...
-Você mudou bastante.
-Estou mais forte.
-Os insultos foram por demais...
-Um pouco...Mas,você?
-Ora eu...Mas não acreditei, Mário de Andrade.
-E as manobras no Rio, se lembra!...Bom tempinho!
-Nosso tempo...
E quis me cercar daqueles braços caídos!...
Então, falando muito baixo pra mim mesmo,
Veríamos juntos se estou certo no que sou...
NO ENTANTO ERA UM DESCONHECIDO.
convidou:
-Sigo pra Caçapava.
-Não pede transferência? É requerer do general. Eu fico aqui.
Me olhou rápido como envergonhado de procurar alguém
Depois poisou o olhar no horizonte curto da rua Conselheiro Crispiniano.
Depois deixou ele cair nas mãos encardidas pela companhia das sombras Burocráticas.
Depois me fitou. Fixamente.
-Não. Vou para Caçapava. Adeus, Mário de Andrade.
-Passe bem.
Que Alívio!
Detesto os mortos que voltam
São tão mais nossas as imagens!
 
sábado, novembro 17, 2012
 
Eu queria mudar
mudar de vista
mudar de vida
das janelas escondidas
muda pessoas
mudo lábios
mudas vozes


uma rua movimentada e suja
augusta ou similar
gosto da símile e do prazer
da visão e de você

Queria ficar na varanda da Campos Salles com a Cesário Mota
Olhar mulheres passando
ando e paro e queria estar neste outro lugar
Espaço com pessoas caminhando, onde viva alguma história morta

Alguma esquina barulhenta
Em Santo André ou São Paulo
Sendo são ou santo
sendo André ou Paulo

Queria viver tranquilo com meu amor
e uma torrada com suco de laranja
seja santa ou louca, sendo boca

Queria ser outra casa
outra vida, alguém melhor
eu mesmo e outro espelho
que sorri duro, talvez pior

Tudo mudo dado e parado
para mudar a mudança
Mudar o mutante
Por um instante

Queria olhar da janela
ver alguém andando lento
ando e queria outra coisa já
já que mudar que nos muda
mudando o mundo humano
mundando queria mudar



 
sábado, agosto 04, 2012
  Um casal discutindo sobre seus problemas de convivência.

Ambiente: Uma sala de um casal jovem, desorganizada, poucos móveis. Colagens e outras artes na parede, um sofá de dois lugares e uma poltrona velha em um canto isolado, livros na mesinha do centro e ao chão, um violão no canto, encostado com o braço na parede, De um lado porta para rua, ao outro lado batente para cozinha.

A porta abre, um homem entra meio cambaleando, bêbado, cigarro apagado e amassado na boca. Olha em volta procurando algo. Vai até o violão e o pega, se pondo a tocar de pé alguns acordes baixinhos. Barulhos de pesados passos dentro da sala se afastando. A luz da cozinha acende. Fumaça de cigarro vem da cozinha.

Barulho da porta da geladeira e uma lata de sendo aberta. Os passos voltam. A mulher para no batente da cozinha, toma devagar a cerveja. O homem ainda não reparou nela. Ela então diz:

M- Foi bom hoje?

H- ham?

O homem olha em volta, vê a mulher.

H- Ah, oi, eae?

M- Foi bom hoje?

H- hum... Hoje? Não me lembro. (ri consigo)

A mulher senta a poltrona ao canto, ao lado dela um banquinho com um cinzeiro cheio de cigarros fumados, e um maço vazio. Fica em Silêncio enquanto olha para o chão

O homem continua em pé dando costas para ela, tocando acordes desconexos no violão sem pausa. Diz devagar:

H- você não foi dormir?

M- não senti sono.

H- eu também não. (ri consigo)

A mulher fica em silêncio novamente e acende outro cigarro.

H- tem cerveja na geladeira?

M- não, essa era a última. E você já deve ter bebido demais.

O homem vira para ela, ainda tocando, ri como se tivesse lembrado uma piada e diz como se procurando as palavras:

H- Eu nem... Passei mal...Ainda.

M- Que não seja dentro de casa.

H- A casa é minha, melhor seria onde?

M- a casa é nossa. Melhor seria na rua, onde estava bebendo.

O homem pega o cigarro amassado que rasga pela saliva e o joga no chão.

M- Porra, caralho. Porque você é assim idiota? Você já limpa essa merda toda porca.
O homem vira para ela e começa tocar Raimundos. "Eu quero ver o oco". Começa a cantar, mas tropeça em uma pilha de livros na sala e cai com o violão na mão. A mulher gargalha violentamente, o homem também. Dura alguns instantes assim, eles sorrindo um para o outros.
O homem então olha para o chão e diz:

H- Pelo menos me ajuda a levantar, porra.

M- Eu não. Na rua você não levanta sozinho?

H- Cacete, eu não moro na rua. - fala irritado elevando a voz.

M- Eu tenho dúvidas. E fala baixo, a vizinha tá loca pra falar merda pra gente.

O homem levanta e põe o violão encostado na parede e caminha sem firmeza até o batente para cozinha

H- Acho que eu vou dormir.

M- Assim?

H- Devia ir como? Vou assim.

M- Ir melhor do que assim.

H- Melhor é relativo, e agora, o melhor, para mim, é dormir assim.

A mulher se contorce na poltrona.

M- Para de ser cretino, você sabe que eu te esperei a noite toda.

H- Mas não quer me dar a mão para levantar.

A Mulher levanta com o cigarro e latinha na mão e se aproxima dele no batente, apontando com o cigarro para ele.

M- Eu devia dar a mão na sua cara seu escroto. Tínhamos combinado de ver um filme, e você nem me avisou.

H- Eu esqueci.

M- De encher o cu de cachaça você não esquece.

H- Deixa de ser hipócrita, você bebeu todas as cervejas de casa, não precisa de mim para te lembrar disso.

A mulher joga a lata vazia de cerveja no chão. Balança o braços deixando cair cinzas de cigarro no chão

M- mas não fudi com o combinado, idiota.

A mulher levanta e arruma a pilha de livros em que o homem tropeçou. O homem está encostado com a cabeça no batente da cozinha.


M- você não me ajuda, com merda nenhuma. A casa está toda podre. E você só vem para dormir.

H- Para dormir com você.

M- dormir comigo para você é meter em mim.

H- Eu não venho para casa para meter em você... m-Porque já mete em outras na rua - gritando

Barulhos de murros na parede e uma voz ininteligível abafada. Silêncio de alguns segundos. O homem senta encostado no batente da cozinha para sala, ele pega um cigarro no maço e o deixa apagado nas mãos. Mulher se senta poltrona, fumando.

H- Viu o filme?

M- vi.

H- Bom?

M- bom.

H- Como era?

M- Eu dormi no meio.

H- Por isso está acordada.

M- É. Esperava que fosse por você?

H- eu não espero essas coisas. Eu sei que você não é assim.

M- Meu, eu não vou mais continuar nessa conversa.

H- posso dormir então?

M- Foi para isso que você voltou.

H- em partes...

Silêncio. O homem levanta do chão, deixa o cigarro cair, entra na cozinha. A mulher acende outro cigarro. Alguns segundos passam, barulho de talheres e uma garrafa de rolha sendo aberta. O homem volta com uma garrafa de vinho do porto em mãos e se joga no sofá. Vinho pinga nele e no sofá, ele pragueja baixinho. A mulher olha para ele como se indignada. Se demora alguns segundo e depois diz com a voz tremula:

M- Esse é nosso melhor vinho.

H- Por isso vou bebê-lo.

M- Agora?

H- E tem hora certa para beber o melhor vinho?

M- Tem. Porra, no mínimo, de preferência quando se tem algum paladar.

O homem parece que vai gorfar, segura e depois diz mole:

H- Nesse momento sou todo paladar e você pura fel.

M- Idiota.

H- Fel...

A mulher passa a mãos nos olhos e diz com um sorriso doído:

M- Eu sou a perâ de Vinicius.

H- A perâ?

Devagar, recitando, ela responde:

M- Como de cera, e por acaso fria no vaso a entardecer. A perâ é um pomo em holocausto à vida, como um seio exausto.

H- pobre perâ.

M- É, pobre perâ.

H- Ela é tão dramática que estragou.

O homem ri bêbado. E a mulher Explode.

M- Vá se fuder.

O homem ri violentamente. Olha atentamente a mulher, diz devagar.

H- Quer ir comigo?

M- Vá se foder.

O homem se sente atingido e indignado, responde:

H- Esse é seu problema. Um Seio exausto? A vida em holocausto? Para de ser bicha.

A mulher levanta da poltrona e vai até a frente dele apontando o dedo na cara com a voz alterada.

M- Você sempre foi ou virou a pouco um idiota?

H- Eu sempre fui, você era comigo. Dois idiotas...

M- Eu nem te conheço. Você é só um bêbado cretino a entrar toda a noite em casa, derrubando as coisas, bebendo as cervejas e mijando torto no vaso. Fodendo a porra toda, cagando nesse buraco fedido em que estamos.

O homem se levanta do sofá com a garrafa na mão se projetando como se por cima da mulher. O tom das vozes é gritante.

H- Vá se fuder. Deixa de ser hipócrita. Quantas vezes você não me acompanhou? Quantas vezes não foi você a beber mais cervejas e vomitar a casa inteira, enquanto eu tentava te arrastar ao banheiro para te dar um banho? E agora...

M- Vê se crescer, vê se cresce...

H- Não porra. Cresce a caceta. Deixa eu falar, você está me apertando o saco desde da hora que eu cheguei, desde do dia em que chegamos. Só porque agora você não sai mais comigo, eu sou o infantil e você a madura. Cresce você. Devia ser eu o fudido nessa história, você me abandonou. Não íamos curtir a vida juntos? E você só sente essa impotência bebê de ficar remoendo a desilusão com a realidade.

M- e a vida é só beber e meter, e cantar e dançar e ficar cantando como beleléu da sarjeta fedendo a merda. Não íamos construir a vida juntos? E você só sabe chegar em casa e derrubar os livros que liamos juntos.  Construir porra, construir. Quando foi a ultima vez que você levantou e me ajuntou a pintar a casa, ou me recitou a merda de um verso...

H- Eu sou poesia todo dia. Você que não sabe captar. Pega papel e lápis, anota, faz um rabisco, transcreve e vê se nota. Isso tudo é poesia, eu não construo a poesia, eu vivo a poesia. Eu constato a poesia.

M- Para de ser idiota, idiota. Você mal trabalha. Isso não é porra nenhuma. Você acha que é uma espécie de Bukowski dos trópicos, mas não vê que isso não é nada que não seja se consumir.

H- Ahhhh. - O Homem grita junto a ultima palavra da mulher. Fortes batidos nas paredes e xingamentos vindos dos vizinhos. Começam a falar por cima um do outro.

M- filho da puta desgraçado...
 H- Construir, construir, construir...
M- Para, para com isso...
H-Construir porra, porra, porra...
M- Vê se cresce...
H- Crescer, crescer, crescer...

A mulher estapeia o rosto do homem e volta para poltrona. O homem se cala, estático. Após alguns segundo, leva à garrafa a boca e dá um gole no vinho ainda em pé. Socos na porta. Uma voz fala que vai chamar a policia. A mulher põem as mãos no rosto e diz baixo.

M- Está vendo seu imbecil, agora vamos ser expulsos daqui.

H- Você nem gosta mais daqui, nem de mim. Quem sabe em outro lugar...

Diz o homem e logo após de joga no sofá

M- Não basta só gostar, a vida não é só gostar ou desgostar, ou essas porras de adolescente. Você não repara nisso. Você não vê como estamos, Viemos pelas idéias se tornarem realidade. Realidade, a porra boa e a porra má.

H- Sonhos não se constroem, são apenas sonhados.

M- Você veio porque então? -Diz em voz alta e indignada

H- Vim por você.

M- Só isso não basta. Não basta.

H- Eu não quero o que basta, apenas o que transborda.

M- Estou seca, sou deserto para você.

H- Um excesso da falta.

M- Nisso é verdade, só ausência existe aqui e distância.

H- Porque tanto drama?

A mulher levanta de novo, esbarra na pilha de livros, e vai para perto do homem.

M- Meu. Você não nota, nada está bom. Estamos aqui esvaindo em um esforço infrutífero. Ao menos eu estou, enquanto você se esvaia em uma perda viciosa que eu nem sei onde é e onde está.

H- Eu só noto que estou perdendo você, e você perdendo seu sorriso.

A mulher se dirige até o batente da cozinha sorrindo forçado.

M- Eu que quero ir embora.

O homem fica assustado a olhando, parece não acreditar. Diz rápido:

H- Assim? Cada um para o seu lado? E desistir de tudo?

M- Tudo o que?

H- Nós somos tudo. Ao menos, eu sinto assim.

M- Somos tudo errado.

O homem ri. A mulher também, Ela se aproxima e fica na frente dele andando olhando para cima. Como um lugar distante

M- Não estamos dando certo. Nada está dando certo. Até nosso melhor vinho se foi. A porra do vinho do porto era para uma comemoração. Uma comemoração. Lembra? Comemorar o que? Comemoramos o fim então.

O homem olha o chão como se de repente ficasse sóbrio.

H- Me desculpe.

Diz o homem, tentando se levantar do sofá em direção a ela. A mulher põe a mão na frente, fazendo que ele se sentasse.

M- Não é questão disso. É que não há o que comemorar. Nenhuma vitória. Nada. Nem a merda mais passageira e comum a todos. Só fracassos do que erámos.

H- Eu comemoro todo dia estar aqui.

M- Você foge todo dia disso. Parece que volta só porque está preso. E eu não quero ser corrente de ninguém. Porque não fugimos um do outro de vez?

O homem está assustado, parece não entender.

H- Fugir de vez?

M- Porque não?

H- Isso seria perder de vez.

M- Você adora se perder.

H- ...Só para me achar depois.

M- Você só sabe brincar. Eu cansei.

Diz a mulher se dirigindo novamente ao batente da cozinha, o homem olha o vinho e diz triste.

H- Você tem que brincar junto para isso ser legal.

A mulher para no batente, encostada. Diz triste:

M- Eu quero ir embora.

O Homem se levanta, ainda na frente do sofá.

H- Para onde?

Ela se aproxima do sofá e do cara.

M- Longe de tudo, estou cansada. Até da sua poesia.

H- ...Quem está cansado de poesia... Está cansado da vida.

M- A vida pode conter bem mais que a poesia.

H- Mas invariavelmente a poesia contém toda a vida.

A mulher se irrita com ultima frase.

M- blábláblá, blábláblá. Cara, sério, eu cansei.

H- Eu acho que ainda estou muito bêbado para cansar.

A mulher se joga no sofá e começa a chorar.

M- Porque você não facilita para mim? Eu vou. Amanha. Vou embora amanha.

O homem senta ao lado dela. Passando o antebraço nos olhos.

H- Não há nada que eu possa fazer?

Silencio.

H- Nada?

Silêncio.

O homem diz com voz triste olhando para a mulher.

H- E hoje você fica comigo?

M- Eu estou com você.

H- Não assim. Assim, toda triste, você já está indo embora. Hoje fica comigo e esquece, até dar o horário de ir. Esquece e fica comigo, como se não fosse embora.

M- E que diferença isso faz. Eu vou embora. É o fim, percebe? Acabou.

Ele para alguns segundos pensando no escuro e diz bem devagar e sério.

H- Eu sei... Que todo momento acaba. Eu percebo... Eu choro, chorarei. Mas agora, antes de você ir embora, deixa esse momento acabar. Mesmo que seja apenas o momento, e fica comigo em outro momento agora. Estando do meu lado como se o momento de depois não viesse e você não fosse embora.

A mulher pega a garrafa de vinho, dá vários goles demorados, põem a garrafa vazia no chão. Fica de frente e encosta a cabeça no ombro do homem. O homem põem os dedos entre os cabelos dela e a acaricia demoradamente sua nuca, depois se põem a envolver entre seus braços.
A mulher diz séria e melancólica.

M- Eu pensava que daríamos certo.

H- E damos certos, só que da maneira errada.

M- Isso não basta. Não basta

H- Para mim transborda.

A mulher ri em meio a lágrimas.

M- Seu excesso é a minha falta. Só me faz muito mal.

H- Eu odeio te fazer mal, mas não nego. Você provavelmente está correta.

M- Eu não quero estar correta, eu quero... Queria, que as coisas deem certo.

H- Creio que você é certa por isso. Esse querer.

M- Isso não faz sentido. Você poderia ter simplesmente me ajudar... Ajudado?

H- Eu te ajudo, mas não o tanto que você quer. Não dá maneira que você deseja.

M- Depois eu vou embora.

H- Todos vão embora depois, mas agora você está aqui.

M- Isso te basta?...Isso... Te transbordar para você?

H- é de tudo o que espero, de todas as incertezas que tenho, medos que busco lidar, algo que me alegra.

M- E é suficiente?

H- Nunca é o suficiente... suficiente, mas é o que me faz querer mais.

M- Esse mais vai te fazer perder tudo. Te faz perder tudo.

H- Provavelmente. Mas desde que me dê algo para perder.

Silêncio. A mulher se demora nos olhos do homem. Ele parece calmo e sonolento.

M- É. Então é isso?

H- O que?

M- Essa é a nossa solução?

H- Solução para o que?

M- Para tudo.

H- Ah, isso.

M- E Então?

H- Tudo?

M- é. O que somos. O que temos.

H- Bem, nesse momento somos juntos.

M- Isso não é a solução, é o agora.

H- É. É o agora.

M- E a solução?

H- a solução a gente deixa para outro momento.

Diz o homem sorrindo. Ele dá um beijo na testa da mulher. A mulher o abraça e põem seu rosto no peito dele.

M- Sua solução nunca vem no agora.

H- A solução jamais pertence ao agora, é coisa que do que foi.
 
sexta-feira, agosto 03, 2012
  Dá Vergonha de dizer
Ô saudade que dói no peito, tão ponto comum que me dá vergonha de dizer. Como contar o que está distante, sem reduzir o que está perto? Talvez não haja maneira, pois saudade sinto apertando perto o distante e me afastando do agora em mergulho ao que foi e gostaria de voltar como acontecendo.

Lembra a infância e cômodos gigantes que faziam da casa castelo de percorrer e se perder, sem, no entanto, nunca não chegar ao fim, que mesmo fim, nada era mais do que portão de outros espaços que refletiam no dentro. E quando voltamos, em tempos depois passantes, aos cômodos passados e deitamos em cama de nós crianças, chorando dentro tão pequeno, de fora estar o grande apertado no infinito universo que criávamos e nos perdíamos tiquinhos dentro de casa. É deste modo à saudade do peito, batendo tal qual o coração, em ritmo constante e compassado, que tentando parar a dar com o sentimento, poderíamos mirar a torto e furar artérias, e outros batimentos, que não nos abatem como a saudade do distante, sendo-o o grande ou o pequeno distante.

Saudade é coisa miúda de ponta puta feroz, a mirar o intento de prosseguir de nossos pés. Saudade é coisa grande de sentimento sentir fraco, de todo arrependimento de quando nos vem a idéia de abandono, do barco o ultimo a saltar. Possante e possuidor, de quando a ligação do ser- -ser é rompida, como ponte sabotada por instinto de guerra, ou paz. Saudade tem de miúda grandeza a aqueles sentindos, sentido e sentença de grade apenas aos grandes. De medo do que foi e virá a ser, não seja mais e nunca tenha sido, e iludidos de dor no peito e outros sentires manjados, feitos martírios gritos de nenhum ouvido, clichês ilhados de reconhecimento, sendo apenas outro eco oco da humanidade combalida e de pouca civilidade à pobre criação.

Saudade que não há a sentir juntinho, pois é alheia a afagos e inexistente no bater diário, corrente união que nos faz prisioneiros-irmãos, amantes-sina, fados-desejo. Saudade vem da falta, ou minto, vem vinda da soma, do troço que em nós nos dói, pois feito e em desatino destinado a outro, se faz veneno o remédio alheio, remédio de nossa ausência e necessária existência quando não em nós.

Mas saudade é sentimento bom, como sono ou morte, parte da coisa, coisa alma vida corpo aglutinação consciente, validando e valendo enquanto parte ou todo, sendo preço e valor que faz das coisas não-coisas, mas sim definição, anti-indefinição da alma da qual nascemos amorfa, e moldando vai-se em nós nos encontros esbarros que damos nos gêmeos sofreres, esbarros exbarros que desejando grudar choram os desencontros que nos fazem feito saudades. Saudade é fazer-se por falta do parceiro fazedor, que nos fazendo antes, fez-nos forte de feições por ele.  Ou não, sendo saudade impossível de focar, sempre de feitio do ido ou a vir, como mudança nossa, do antes junto, agora separado, planejando-lhe-ei unir.
 
quarta-feira, julho 25, 2012
 
Agora é julho, você sente?
É inverno, ainda que só um pouco
Um sol pouco, ainda que Brasil
Baque de abril, do fim das torrentes

Dessa época noto o ar seco de frio
Só tendo a pensar com pena do Rio
Pois em SP estou contente, levemente
Esquecendo as dores de ser ventre
Oco e vertente, fonte risos de choros doentes

Poucas memórias guardo de ruins
Muitas bocas usam do batom carmim
Felicidade, ainda que pouca, mas enfim
É Julho, como uma oração
a todos pobres que sofrem no verão

Neblina, carros, guarda-chuvas
Uvas, gorfos-vinhos, perco a linha.
Peço aos céus que adias o perdão
Quando praguejo de inverno punição

Das peles que buscam abrigo
Toques tarados, beijos amigo
Você sente? Quando julho há pouca perversão

Do ausente carnaval perigo
Carnal sexo no frio umbigo
Marcas dentes mostram julho mostrando união

Julho acaba também, como janeiro acaba por bem
É rápido fugaz na terra onde o fio frio surge apenas breve mas.
Mas luta, contraindo a vontade da terra equador, só de calor,
Julho é frio e teima poeta, lembra a teima tornar da frágil flor.
 
quinta-feira, julho 05, 2012
 
A parada é doida. Ou algo do tipo.

A rotina é um cão louco e sem dono, abandonado a rua, andando em meio ao caos urbano de condutores alucinados e apressados, ou algo do tipo.

Eu já não sei, e tantos outros estão comigo, de não saber como esses caminhos são feitos ou porque se fecham em nossa frente, como em labirintos de carros, congestionamento que invade a faixa, fechando nosso caminho em padrões mutantes, ou alguma coisa meio que assim.

Quando eu penso sobre as coisas semi-eternas que vivem entre nós, no topo da escuridão, fico meio horrorizado. Não que eu seja invadido por aquele típico sentimento de angústia e pequenez. É algo mais próximo ao sentimento de desilusão. Somos deuses transitórios, senhores entre a passagem do tempo em que os astros não se interessam em ocupar. Somos a praga entre o existir e o nada, a solidão de não abraçar o sol. Muitos jogados ao próprio transito em que vivemos guiados cegos por um cão louco, esse transito é de nossa natureza, sempre alucinado e apressado, como a passagem, em um instante labirinto, gastando-se entre o que que temos de tão pouco, em uma precoce ida ao nada.

E então, porque não? Porque voar e intentar ao sol e as estrelas longínquas, gastando-se entre o caminho impercorrível daqui até ali, do outro lado, abóbada casa de deuses estelares, e por fim perecer no vácuo da impossibilidade perante as coisas que não tem fim, gritando um vão e fútil sim? Se há glória ou poesia eu já não sei, e tantos outros estão comigo, mas se intento aos céus penso assim: "Se busco o céu, da certeza da minha queda obtenho consolo, ainda que cadente seja também estrela".

Ou uma doidera assim.
 
  Entre os espaços.
E entender que os dias não são feitos apenas de momentos bons
E tudo está amarrado
E que tudo mantem uma distância mínima
E uma distância máxima

E que o conflito é eterno
E igualmente é o prazer
E que ambos estão irremediavelmente juntos
E esses mantem uma distância mínima
E uma distância máxima

E que vida acontece em inicios sem fim
E que o acontecer tem um fim
E que o fim é forma de dar ao começo um sim
E isso se dá ainda mantendo-se uma distância mínima
E uma distância máxima

E o tempo está somando as coisas passageiras
E que todas passam
E que o passar é eterno
E passa a uma distância mínima
E uma distância máxima

E que os espaços entre as palavras são mensagem
E sendo assim, a ausência delas mensagem também
E somente se mantem a uma distância mínima
E uma distância máxima

E esse desenho leva sempre a mais
E que mais por demais significa menos
E de diversas formas
E de quantos diversos
E se se mantem uma distância mínima
E uma distância máxima

E perceber que entender é por tanto vão
E existe no vazio uma cola prisão
E que essa é a distância mínima
E é a distância máxima

E entender que o "e" é uma forma de continuar
E uma necessidade para nosso ser
E todo “eu” vem precedido e disposto a um “vocês”.
E que esse "e" é a distância mínima
E é a distância máxima
 
segunda-feira, junho 25, 2012
  Ressuscitando.

O calor reflete de uma mesma espécie
Que a agonia derrete e amortece
Janeiro é o mar de fogo de sempre
Uma serpente a nos esmagar a prece

Ruir e desaguar são pouco desiguais
Fulminados pelo sol, que posse?
Formigas somos em lentes de aumento
E a Vontade é um cântico falho a chuva

Não contei a ninguém das dores
Os anseios críveis, rancores cancros espalhados pelo suor.
Isso é o pior

Só levei de graus dezessete pares
As desgraças, feitos, são caminhos de razões atribulações.
Sem orações.

Poderíamos pular mais, escapar pelos poros.
Ser as lágrimas da pele rezando aos céus
Ah, que destino ruim, conosco sem mel.
São os tinos e fados que cantam nosso hóros

São Paulo e seus concretos ferventes
Chegam a me doer todos os dentes.
Amodeio tanto essa cidade linda
Janeiro existe mesmo no céu cinza
 
sábado, abril 21, 2012
  As vezes vazios vazam verdades vulgares.
Eu to cheirando fumaça. O vício dos amigos e das pontas.
Um novo começo. Tudo é um novo começo, mesmo que seja um começo de vícios dos perigso e dos sacríficios. Em nós existe, e só existe, o perder e toda essa coisa da falta e ausência. Não notar o vindo é se colocar enquanto parte de todas a somas do perder, ou ido de todas partes a perdidas.
Nós festejamos e nisso curtimos. Não nego, mas o escrever vem depois, na pausa e na ausência, periodo em que a memória invade apenas enquanto falsificação ou parte da verdade dura.
Minhas companhias, minhas drogas, minhas falhas e poucas vitórias, vem em um receptaculo da minha aglutinação da revelações. Eu sou muito pouco e não nego, qualquer sexo ou droga barata satifaz todo meu ser, mesmo que em instante vício, periodo único em que existo, periodo que depois não lembro de ser.
 
terça-feira, março 27, 2012
 
Nunca entendi muito bem essa coisa de poesia. Ritmo, sons e palavras nessa brisa toda de versos. Quando eu era mais jovem, há alguns meses, eu tinha mais certezas, várias, a maioria delas definia o mundo e oprimiam a mim e todos os que estavam por perto. Não que minhas duvidas sejam menos opressivas aos que existem a minha volta, mas são primordialmente dúvidas. Questões sem solução aparente a qual busco respostas nos que estão próximos a mim. É complexo. Me disseram certa vez que na poesia a palavra não é representação, mas adquire um sentido em si, sendo ela mesma seu significado. Me disseram que a palavra na poesia não provê do mundo profano, mas de um mundo artístico transcendente, no domínio do gênio da subjetividade humana. Não que isso me ajudasse de alguma maneira a compreender mais o que seria isso que chamo de poesia.

"É tudo porcaria." Talvez isso resuma tudo em alguns instantes, mas geralmente me parece insuficiente. Geralmente eu me atento aos valores das palavras. Afinal, o que significa valores? No sentido das ciências sociais, no sentido psicológico. Existe um valor em filosofia? Eu ainda não consegui partir de um inicio. Tenho em mim uma sensação brutal de impossibilidade, de impotência e pequenez diante da infinitude de um mundo sem classificações eternas. Li em algum lugar sobre outra infinitude, uma relacionada a nossos pensamentos, mundo infinitos. O do nós, o do deles, o do eu e o de todos. Mundos de percepções subjetivas, mundos de medições invariávelmente variáveis. Mundo de analise, de impossibilidade de pertencimento. Não me senti muito melhor com isso, acho que ninguém ficaria.

Trilhões de mundos, um para cada neurônio solitário e burro que se enquadra sozinho no meu cérebro. E a poesia? Onde ela se encaixa nisso? Enquanto uma probabilidade matemática de signos visuais e sonoros em uma dança alucinada das significações e insignificância que povoam a impossibilidade da aridez de uma única verdade somatória e finalizando? "É tudo porcaria, lixo do mundo." Poesia é lixo do mundo como o próprio mundo imundo amundo. Ah, mundo. Tem hora que a gente desiste e apenas recita a poesia dos dias mundos.
 
quarta-feira, fevereiro 22, 2012
  Morangos mofados me lembram carne podre, isso mesmo enche de angustia e medo.

Abri a geladeira a procura dos morangos encaixotados. Estavam guardados já há algumas semanas. Sempre passava por eles com meus olhos enquanto abria a geladeira nos horarios de almoços e jantas para pegar minha dura comida gelada; vermelhos, pequenos e delicados morangos guardados no mesmo local de quase um mês.

Peguei as duas bandejas de morangos largados que minha geladeira continha. Os coloquei em cima pia de frente a janela, as luzes naturais do sol da tarde invadiram as embalagens de plastico transparente exibindo um fractal de mofo e fungos. Vermes e outros seres de distintos reinos animais, todos devoravam os morangos que durante tanto tempo desejei. Não que eu tivesse desistido, mas não nego o pensamento sobre. Fiquei durante alguns instantes atônito, observando a configuração da coisa. Morangos flácidos e caidos envoltos naquela teia branca e mucosa, alguns geravam líquidos que preenchiam o fundo das embalagem e tingiam a teia de um tom vermelho que lembrava  sangue e cinzas de cigarro. O cheiro exalado agora sob o sol era doce e me lembrava a idéia de morte.

Retirei o plastico pvc com calma tentando não girar a embalagem que guardava tantos líquidos putridos. Morangos tem esse costume de cheirar quando apodrecem, penso que avisando sobre o fim. A Samanta que estava no quarto lendo desceu as escadas e veio a cozinha perguntando se eu estava tomando yogurt, respondi "era apenas cheiro de morangos velhos." Mas Yogurt  é leite estragado, conversamos e ficamos em dúvida se o morango do yogurt também estava estragado como o leite.
Faz sentido, essa coisa de coisa pútrida. O que consumimos e o que jogamos fora. Será o podre apenas aquilo que nos recusamos a consumir? A Samanta sorriu, o consumido e o putrido se encontrava em alegria nela, já que ela amava tudo o que cheirava, eu por outro lado era um pouco mais exigente, ao menos quanto ao cheiro, nunca gostei do cheiro; o cheiro fugia ao meu controle, invadia meu sono pelo vento que vinha ao quarto, e eu, tão vítima, já odiava aquilo que fogia ao controle de minha inconstante e fraca vontade de controlar o mundo.

Liguei a água quente da torneira e decidi despedaçar os pedaços de morangos que não me desejam ou eu desejava, pois o cheiro que tanto me desagradava vinha deles. Os esfreguei, como que os lustrando, apertando com dedos cruéis o indesejavel, apertei a carne morta do morango. Levei ao ralo  o que também era desejado, pois a fúria tem essas culpas, de destruir o amado e o odiado, como se fossem um o doppelganger do outro. Eu tentei tão forte conseguir algo a consumir, já que a consumação levava ao prazer, enquanto a Samanta olhava traida, pois adorava o cheiro que eu agora relegava ao ralo, olhava traida, pois a deixei largada a cama enquanto a trocava por morango mortos.

Eu sei que devia saber que o paladar traí. O traido e o traidor. O paladar é vítima cruel que não deixa se arrepender sem antes um pedaço da língua arrancar, e nós, pequenos e vítimas do paladar, sofremos as angustías do vícios, pois quem não ama pequenos morangos pútridos não ama vida, tão feita de pedaços e outras coisas que deixamos estragar com medo de saciar. Samanta sabia disso, me saciei nela, ao menos no ansiedade antes de saciar as vontade do morango, por isso amava o cheiro, simulacro do gosto sem o risco do amargo. Eu por outro lado a provei, ignorando seu cheiro, seu palato era doce e amargo. Pode entender? As coisas coexistem, mesmo aquelas que dizemos ser contrárias, pois essas coisas são irmãs, são siamesas, não há como provar o doce sem entender em maneira o que significa o amargo, pois um existe dá ausência do outro, e assim morango que são tão doces e completos, me dão angustia e medo, pois só existem devido ao vazio e ao amargo que faz da vida esse campo de frutas mortas-vivas; que nos matura faze doce e o ébrio vício. O cheiro? O cheiro apenas finge, sem trazer punição, sem trazer verdade.


 
domingo, fevereiro 12, 2012
  Os bons mentirosos e as pessoas más.
Estávamos discutindo há alguns dias então. Ele sempre me dizia que nunca conseguiria esquecer, mas nunca é tempo demais e eu já estava a ficar sem paciência. As pessoas vinham e me julgavam dizendo gratos e indignados que eu não poderia ter dito aquilo. Era a cara dele isso, se apoiar em seus amigos e nesse pacto silencioso de mentiras escolhidas a dedo. O resto pode se relegar as matérias não interessadas.

Durante um tempo liguei para ele durante os dias a tarde e pedi para nos encontrarmos, mas ele me ofendeu ao dizer que não poderia se encontrar com alguém como eu. Leproso e aidético. Me senti par de uma dúzia de astros mortos, de Renato Russo a Freddy Mercury. Só é bonita a incisão distante, pois esse filho de uma égua evitava-me com uma maneira aguçada, como se eu fosse a faca de um cirurgião a tentar lhe trabalhar órgãos vitais de maneira não apropriada. Outro dia no período da noite, antes de dormir havia enviado uma mensagem em seu celular. "Será que ele é tão sensível? E eu uma pedra áspera contra sua boca em beijo?" Perguntei a todos do nosso círculo social, mas estes se ressentiam comigo. Eu havia falhado, não demais, mas falhado. Todos falham, mas não em contar a verdade, a maioria falha em mentir, portanto nesse ponto só eu havia falhado, e devido a isso me apontavam o dedo.


A verdade, após ser ouvida, não pode ser esquecida, ela é como um eclipse, cobrindo todo o sol, fonte de luz, até que a pessoa aceite esse novo estado permanente do sol, como o estado que é, sempre foi e nunca deixará de ser, mesmo que esse esteja de passagem por ser parte da vida, e com essa morre. Eu contei para um amigo sobre o que fiz, ele me aprovou com pena nos olhos. Não pena a mim, mas ao ouvido dele. Sim, ninguém quer ouvir a verdade. Ainda mais se ela já foi previamente escolhida enquanto não grata. As pessoas se ressentiriam com aquele que leva o mal a lugares sacros, que profana o silêncio da oração e pragueja contra a claridade artificial com qual pintam os dias.


Ele afirmou que poderíamos termos dados certos. Um compromisso duradouro. Em mensagem no celular ele disse, afirmando sem muito drama, só deixando a entender que eu falhara com tudo isso. Que minhas verdades tornaram tudo muito instável e impossível, que ele levaria embora com ele nossos amigos e todos aqueles que gostavam daquilo que nós fomos. Que tentaria de novo com outra pessoa, alguém que se mantivesse em mentiras quando essa fosse aceitável, ou ao menos desejável.


Decidi então ir a casa dele, liguei, telefonei, toquei a campainha até que os vizinhos saíssem, insistiram muito que ele não estava em casa, que eu deveria ir embora, para não atrapalha-los com meu barulhos e minhas verdades. Eu fiquei chocado. Estou sendo denegrido, ou professado, se eu aceitar enquanto verdades as palavras deles sobre minhas verdades. Por vingança contaminei todos os vizinhos com verdades cruéis e profundas sobre eles e as vidas que possuíam. Isso tornaria em médio prazo toda a vida da vizinhança em algo impossível. Talvez as próprias vidas dos vizinhos impossíveis. E quando ele voltasse para casa não haveria uma simples pessoa em sua volta cuja alma não havia sido tocada pelas verdades evitadas.

Fui para casa, deitei e esperei. Ele ligou ofendido e esbravejando, que eu era uma praga. Furando os pactos de silêncio e mentiras. Que se arrependia do dia que havia me conhecido, que sentia nojo e repulsa de mim, que evitaria a mim e todas a lembranças de contato, que vomitaria ao me ver. Essas coisas cruéis e verdadeiras que as pessoas juram nunca contar uns aos outros. Mas era tão vão e inútil suas falas, pois o que não entendia ele, era que suas verdades para mim eram sempre aguardadas. Era eu uma pessoa má.
 
domingo, fevereiro 05, 2012
  É

Ela falou que eu a magoei. Foda-se. Deve ser verdade, minha mãe sempre fala mesma coisa. Que eu a magoou. Visto por esse lado pode ser até prova de amor, uma deficiência, uma incapacidade de gerar felicidade em pessoas por qual sinto tal sentimento. Minha Psicóloga falou algo do Gênero também, que eu magoei as mulheres de minha vida, ela também é vitima  de minhas magoas, mas eu não a amo, tão pouco creio que ela sinta algo por mim. Ela não lembra ninguém familiar ou aguça qualquer desejo para que eu a queira. Não a amo, nem a desejo.

Elas dizem também que eu praguejo muito, palavras baixas e grosseiras, nada brilhante ou muito criativo, as mesmas porras e caralhos de sempre. Pode ser uma minha obsessão, minha psicóloga pode o achar também, mas não me diz, esperando que eu sozinho encontre minha sexualidade. Algo do tipo.  Duvido que seja isso, é provável que seja mais uma repulsa, como um nojo do homem, pode ser que eu queira ser mulher. Não, para mim não faz muita diferença, ainda que eu não me importe em ser macho, não tenho ambições não instintivas sobre o corpo feminino, fazendo assim com que toda essa citação de rolas possa ser apenas uma citação de poder. Se mulheres tivessem paus e cacetes virtuais como machos mentais eu poderia me lidar bem com elas, mas isso também é mentira. Odeio homens, e se eles não se magoam comigo é que não sei lidar com eles e eles não se interessam em lidar comigo, acho que estamos bem assim. 

Estou trabalhando em melhorar, ser uma pessoa razoável. Capaz de articular as palavras sem atingir pessoas de cristais. Não estou me saindo muito bem nisso. Mas estou tentando, pensando em fazer Direito, ou Medicina. Um profissional liberal bem sucedido. Acho que ela gostaria. Acho que todas elas gostariam. Minha mãe, minha psicóloga, e ela. Eu poderia me filiar ao PSDB, ou ao PV, sei lá, uma coisa assim, não tão liberal como um Partido Republicano, mas também, mas nem tão pouco como um PMDB. Eu estou refletindo sobre isso. Comprar um carro e frequentar a reuniões familiares e outros encontros com amigos e suas esposas. O foda é minha boca, e minha capacidade inerente de magoar as pessoas, ainda que essas pessoas sejam apenas as fêmeas.

Sou muito bicha. É isso, talvez isso defina tudo. Uma puta bicha assexuada, incapaz de ter qualquer relação razoável sem cagar na merda toda. O que fazer? Essa é a grande pergunta, essa porra de absurdo. Tudo absurdo, brotando se multiplicando e morrendo. Toda vida em lágrimas, e eu, bicha o suficiente para reparar nisso tudo, e falar as pessoas, mulheres sensíveis o suficiente para ouvir: Está tudo fudido, tudo fudido.



 
quinta-feira, janeiro 26, 2012
 
Eu não faço citação, tão pouco vendo minha alma, não vivo em concessões e esse é meu carma.
 
terça-feira, janeiro 24, 2012
  sobre os sopros
Acordar e ir trabalhar. Os vícios dos passos guiam também os passos do sono, e vou dormindo, esquecendo de tudo que um dia penso em ser. O violão que me acompanha, badalando canções sem temas na cama onde relaxo,  já não reclama mais do que as notas dissonantes que por vezes lhe arranco.
É tudo em vão, não existem prêmios, ou vícios que valham mais do que um vão verso de um breve cântico a humanidade e minhas dores.
 
quinta-feira, janeiro 12, 2012
 
Quando eu era pequeno olhava mais o céu, luas, estrelas, e outros seres celestes. Hoje fixo minha mira com foco em meus pés, e assim caminho guiando sem saber a qual sol. Refleti com pesar, de que o luar cansado, olhando para baixo, esteja mais sozinho sem nossas vistas angustias se cruzarem.
 
sexta-feira, dezembro 23, 2011
  Cotiodiano.
Existia uma dúvida que me corroía a meses seguidos, me levaram a atos impensados, tapas e gritos exaltados contra senhores, peões e árbitros da existência diária, porém com ela eu já chegava quase em uma falsa e instável harmonia, cedia um pouco todo dia e ela se arraigava em mim tentando uma simbiose desrespeitosa a minha integridade com a paz, mas,  pois que eis em dado momento lúgubre, eu, em estado de alteração etílica e uma inquietação vocabular digna de momentos de euforias vitoriosas, me pus ao parceiro ao lado, enquanto circulamos por um carro, a um interrogatório sorrateiro e pretensamente pouco pretensioso, abrindo caminhos ao ponto de minha dúvida.

Logo após sugerir uma visita inesperada perguntei descontraído olhando a garrafa de vinho: - E se ela não nos receber?

- Ai sei lá. ele respondeu desintessado.

Insisti como interessado apenas em papear.- Mas ficamos moscando por ai que nem dois idiotas?

Me olhou de lado e disse como contrariado. - E você quer fazer o que?

- Quero fazer alguma coisa, mas estou sem ideias. Falei olhando-o fixamente, pois que seguida ele afirma energeticamente de maneira carinhosa - Então beleza, obrigamos ela a nos receber, deixa comigo.

O silencio pairou pois alguns instantes e tornei a falar calmamente em assunto desconexos. - Já pensou comer uma puta?

- Nem fodendo. Respondeu feliz e sinceramente.

- Com quantas pessoas você já fez sexo?

- Algumas

- Quantas delas?

- Para que você quer saber?

Respondi ardilosamente. - Curiosidade.

- Algumas.

Apontei a mira. - E ela é boa?

- Ela quem?

- De quem estávamos falando?

Ele respirou em ritmo cronometrado, porém mais pesado - Não fiz nada com ela.

- Por que não?

- Porque ela não quis me dar.

O silencio durou apenas o tempo de eu decidir ir até o fim. - Por que não?

- Porque não rolou a oportunidade.

- Entendo.

Falei pesado e fingindo mudar de assunto - E a outras? A conversa continuou enquanto eu estava distante o odiando.

Nada tão comum quanto o desapego imaterial a amizade eterna e amores não amorosos. Ia martelando comigo a fúria dessa traição ao então antes combinado. Desrespeito congênito, me mordia, estava sentando ao lado de quem me jogaria ao cães, essa era minha reflexão. Queria pegar a garrafa e enfiar pelo seu anus a romper seu reto e faze-lo morrer por uma hemorragia com vidros, sangue e merdas saindo de sua bunda para seu desespero final. Queria puxar o freio de mão e capotar o carro logo após soltar seu cinto de segurança. Queria morder sua jugular e arrancar sua artéria com os meus dentes até a altura de seu coração. Apertei a garrafa o mais forte que pude pouco antes que ela pudesse quebrar e respirei profundamente ao ponto de chamar a atenção dele.

- O que foi? perguntou diminuindo a velocidade do carro e me olhando preocupado.

- Vertigem do álcool.

- Se for vomitar avisa que eu paro e você vomita fora do carro.

A ira passou e pensei comigo mesmo que findado o ódio também não restaria a dúvida, pois o tempo resolve tudo menos as, agora mortas, possibilidades.
 
  Canto dos Deuses
A dose é um real, ela afirmou, inaudivel diante ao pagode e o estrondoso bar lotado. Corpos quentes encostavam em mim, suavam abundantemente, e eu, que desconhecia a quase todos ali, me sentia oprimido e em certos entender esmagado, era, talvez, o homem mais baixo do local, porém não o mais leve. Parecia sumir perto de todos aqueles homens altos que malham em academia antes de irem trabalhar, pernas grossas de mulheres vaidosas, pensava rápido em constatação gratuita, "esse não é meu local".

Olhei para o Koga e o convidei para uma dose do famigerado velho barreiro. Estou cansado de pagar tão caro para me enbebedar nesse bar de merda, trinta reais, quarenta ou quem saiba mais, em estatísticas espontâneas surgem números altos, mais de quinhentos reais em três meses, ou sei la, não me apego a detalhes assim, só ao sentimentos de perca. Eu vejo em seus olhos o constrangimento, Koga em seu vício inerte e a responsabilidade de manter em pé para momentos vindouros, foda-se, essas preocupações não são minhas, as minhas se tratam do tédio, o estrado da cama que me come os ossos em minha sobriedade, e o resto das coisas. Os copos se enchem, até a boca e então álcool transborda para o balcão de metal polido, pego delicado, entre o polegar e o indicador, o copo de dose, de vidro reluzendo, com reflexos licorados e tato de quase velúdo em perfeite encaixe em meus dedos suados. O Koga reclama de a dose ser grande demais, mas dose, para mim, normalmente é um copo americano, e eu fiquei, até certo ponto, aliviado. Ambos nos preparamos, nos olhamos em desafio cômico e viramos o copo em um só gole enquanto os que estavam próximos encaretavam ante o ódio a nossa nojeira e pobreza. O shot, a cachaça e meus dedos estavam quentes, pareciam sair do próprio caldeirão do diabo, nunca uma cachaça me fora tão boa, desceu pelo palato da maneira apropriada, quente, doce, sensível, em seguida caiu no estômago como uma bomba, queimando como uma explosão de um missel de balística, terra-ar.

Qualquer desculpa é desculpa quando há interesse, e na repetição estava meu pensar. Uma sedução barata e vulgar, isso não impressiona, mas sobre a incerteza do Koga, a afirmação infame e dislexa de que o Luciano não havia nos acompanhado e devíamos fazer a honra, como bons amigos, de bebermos uma vez mais, e eu, em sacrífico mortal e sublime, pagaria as nossas doses, a todos convência. Água desgraça, parecia verter vapor e queimar todo o ambiente cheio de mulheres bonitas e de plástico, homens fortes e vazios, o pagode tomava ritmo e os cantores afinavam, essas coisas de gosto é ausência de embriagues, portanto mergulhamos novamente, dessa vez com a companhia de Luciano, nossas bocas no pecado. O pecado chama-se felicidade, a punição a lembrança, mas agora estávamos dopados, anestesiados, mentiras e farsas alegrias, eramos todas as mascaras das comédias gregas, e assim sorriamos sem parar diante a queimação estomacal provocativa e dúbia.

Drogas como essas deviam ser proibidas, transformam o mundo e as pessoas, me transformaram em esquizofrênico, pois ali agora parecia ser minha espécie de lugar.
 
  Natureza das coisas
Dez e meia, bebi vinte e cinco reais junto alguns conhecidos, não que isso fosse prazeroso, mas fazia precoce as horas, enquanto embriagava-me em fortuitas fortunas de asco comum fiz as companhias grandes alegrias. O celular tocou em voz contente brilhante, era um convite inesperado, impensado, sabotador e necessitador de uma sacrifício brutal, pois essas coisas sempre combinam com quinta a noite, com garoa, frio e distanciamento, me soa como uma constante que marca os tempos compassados de qualquer coisa de minha vida. Não que o sacrifício fosse imenso, afinal, tem um ideal ou uma ambição nessas desgraças de perder, e fui enganado em querer alcoólico e apaixonado.

- Blanco, sabe como chego a Usp, no prédio do ECA?
- Então, Mandu, não sei não, mas tem ali, em frente ao shopping, um trem que para perto da cidade universitaria lá, de lá acho que é facinho.
- Ah, beleza, acho se pá vou em uma festa lá na Usp, uma amiga minha me chamou, só que eu não sei chegar e tenho pouco dinheiro.
- É, ai é foda.

Confesso a dúvida quanto ao medo lógico e sensitivo das possíveis conseqüências dessa função casual e inesperada, posso eu perder-me até as horas vespertinas surgirem, eu em locais desconhecidos, em situação entregue e perdida diante a minha inaptidão a vivencia noturna na cidade cilada, mas há manjares nas vitórias das madrugadas, em companhias salivas, em mãos dadas. Refleti em álcool e angustias baratas, há de certo minha cama e outros vicio para satisfazer, contra a aventura que pertence as novidades e desconhecimento pesam a condução garantida, o dinheiro contado, o contato mal feito e todo a imprevisibilidade de qual poderia ser uma convexa piada.

- Julio, nem vou para casa hoje, vou em uma festa, abraço.
- Ô Felipe, volta aqui. É sério, onde você vai?

Coloco os pés em linha andina em disparada a busca de minha primazia, onze horas, se o trem jogar em oposição a minha sorte estarei fadado ao sono da rua, ao perambulo da insensatez, ainda que o frio hoje pode ser mais solitário diante ao fracasso de meu intento. Ruas canceres, onze e dez, os visíveis caminhos parecem levar a camas, zumbis sem alma dispõem-se em passos arrastados, buscam sangue para o morrer que inicia em continuada repetiação no despertar, vou no seu encalço, roubando seu vacuo, querendo sua condução, e quando chego me bato em aflição do vazio que domina e cobre toda a plataforma, talvez eu seja enviado ao próprio limbo, existe uma clara disputa de catarse. Serei eu jogado ao paraíso ou aos tormentos?

-Alo? Querida to na plataforma no Morumbi, eu vou chegar na estação cidade universitária e lá eu pergunto para alguém onde é o prédio do ECA.
-Estamos aqui em Diadema, vamos chegar mais ou menos uma hora lá, ai eu te ligo.

Gosto do cheiro dos trens dessa linha, é antítese ou um sarcasmo feliz com o distintivo da cidade, há no ar um paladar tutti frutti contrastando com o escatológico e intestinal Pinheiros, logo comeria os vagões e as pessoas arrumadas que voltam da Berrini em suas roupas caras, expressões esnobes cheias de acessórias sofisticados e agregados. O caminho é simulacro abatedouro, vou jogado de esquerda e direita em ritmo hipnótico messiânico, levam-me para algum lugar, estou calmo, estou cheio de luzes e ar-condicionado, sou condicionado.

-Com licença, você saberia me informar onde ficar o prédio a USP? Eu estou tentando chegar em uma festa no prédio da ECA, conhece?
-Cara, então tem o viaduto aqui fora, você sobe nele e segue a direita, ai você vêra um portãzinho pequeno, entra que vai ter uns seguranças para te explicar o caminho.
-Você saberia informar se é longe do portão o prédio?
-Putz, cara, isso eu não vou saber dizer, essa porra é enorme, mas se você tiver animo para andar é tranqüilo.

Fantasia de defunto e miliante, emular um simples marginal, cheirada de pó e criptonita policial. Coloco a toca e me encaminho por uma escada ingrime e irreal, escalo torres de esgoto, urina e resíduos de ilícitas drogas, esse fedor entope minhas narinas e mistura-se com o odor fétido do rio, estou nadando em excrementos gasosos que me inflam e carregam degraus acima, pois quando acabo pousando no viaduto, esse, que parece levar a um nada fantasmagórico em seu abandono a monstros motorizados peidando e roncando, me chupou e deu-me com uma incógnita porta em um muro espontâneo brotado da própria terra e sua contaminação mutante pela merda paulista. Temo e entro com o álcool no sangue, esperança na mente, libido no corpo e uma tola automação.

-Ola, cara você pode me informar se aqui é USP?
-Se veio para a festa?
-É, o evento da ECA, sabe onde é?
-Segue reto ali e depois do relógio vira esquerda.
-O relógio?
-É, ele mesmo, baba.

Se fossem jardins não temeria, no entanto não nego a calma que esta apossando, derretendo no conhecimento de estar em algum lugar, da segurança, quem sabe funcional, e no pensar que de ser doze e vinte, no mais porém haverá de ter volta em cinco horas, passáveis a um entregar destemido ao desconhecido sedutor campus escuro. O andar sincronizado com o relógio, na espera hora do ter o que vim buscar, troféu do desbravar, romantização cabível do transcorrer alcoolizado pela madrugada em busca do beijo de seus sonhos, do toque de mãos, no entanto assumo, o passo comum, cambiante, embriagado que posta-se em caminho a uma fêmea possuidora de uma paixão não desejada, sou um ser que desloca o corpo por um campus vazio, escuro e sem vida, escorado em uma audição de músicas, vozes e barulho.

-Com licença, desculpa atrapalhar a conversa de vocês, mas aqui é quintaibreja?
-É.

Sento e pouso de material de desenho, terminar idéias, ter idéias, passar parado e mover o tempo, teoria barata do rabiscar isolado, rabisco enquanto o álcool foge ao sangue, perco sonhos, libido, imaginação, muitas coisas, menos o gosto ainda forte na boca que eu imagino, ficar só e parado tem esse efeito sobre nós.

-Alo? onde você esta?
-O Fe esta estacionando o carro, te ligo logo mais.

Porra, os créditos acabam, esse lugar fede a maconha com bosta, cerveja derramada e urina, todos os lugares em São Paulo fedem a urina. Marcho duro e observador por entre boêmios felizes, abertos e simpáticos, espera de logo contato, tanto faz, já cheguei até aqui. Vultos ambíguos de estapafúrdia comungação espiritual, ritual pandemico de amorfas voltas cabalísticas, três vezes cinqüenta e seis, seis vezes trinta e quatro, nove, nove, nove, os cantos tem corpos que cantam.

-Oi querida, oi Io, oi Fe. Nossa que treta chegar até aqui. Deixa eu falar, estou sem dinheiro, tenho só dez reais, fica com você Fe, ai eu bebo do que você comprar.

Sorriso capiroto, houve sementes anfibológicas saltando quando beijo seu rosto em comprimento e sinto a necessidade primitiva de sangrar os lábios, agarrar-lhe os braços e iniciar cópula, no entanto sei de seus encantos e prognóstico, de seu decoro. Compramos cervejas e caminhamos em busca de algo relevante ao grosso e disforme totalidade, falando outra lingua de não estar ali, músicas que não ouvimos dizer nada a nós, a impedancia basica e rotineira de pertencimento, estranhamento vicioso e viral, isso que nos afasta e nos mostra do que somos feitos.

-Vocês vieram aqui para o que? Estavam entendiados em casa e decidiram vir?
-Então cara, viemos para divulgar a viagem que eu estou organizando para São Tomé. Entregar esses panfletos que imprimimos e ver se conseguimos mais pessoas para irem.
-Hum, já entregaram bastante?
-Ainda não.

Andamos sem rumo nos embriagando em cervejas e na vodka recém comprada, grato pelo álcool não oriundo da cevada, penso, mas tão pouco gosto, há vomito em cada trago vicio, repetição. Os panfletos acumulam nas mãos da Iorrana e bebendo parecem multiplicar-se, flutuar e clamar por entrega, e essa vergonha que nos impede inexiste no Fe que dispôs a, e, se entregar, propõem outras coisas. Interromper desconhecidos e profusionar papos infinitos na mentira complementação que atrai carencias e companhia.

-Onde Isa?
-A fogueira, vamos sentar lá um pouco.

Amoleço, vodka Natasha e companhia verão, o desejo me salta os poros que não mais controlo, perfume hormônio, quanto isso atrai a mim como homem, apago da mente os pensamentos ruins, os horários pressagios, uma e quarenta, faz tanto sentindo que devo sentir e disponho meus lábios ao encontro do seus, meus olhos a penetram, porem o beijo não a tocou, desvia o olhar e própria alma de minha rota. Tudo bem, ambições tem dessas coisas.
 

Nome:
Local: São Paulo, São Paulo
Arquivos
Janeiro 2008 / Fevereiro 2008 / Março 2008 / Abril 2008 / Junho 2008 / Fevereiro 2009 / Abril 2009 / Junho 2009 / Julho 2009 / Agosto 2009 / Setembro 2009 / Outubro 2009 / Novembro 2009 / Dezembro 2009 / Janeiro 2010 / Fevereiro 2010 / Março 2010 / Abril 2010 / Maio 2010 / Junho 2010 / Julho 2010 / Agosto 2010 / Setembro 2010 / Outubro 2010 / Novembro 2010 / Dezembro 2010 / Janeiro 2011 / Fevereiro 2011 / Março 2011 / Abril 2011 / Maio 2011 / Junho 2011 / Julho 2011 / Agosto 2011 / Outubro 2011 / Novembro 2011 / Dezembro 2011 / Janeiro 2012 / Fevereiro 2012 / Março 2012 / Abril 2012 / Junho 2012 / Julho 2012 / Agosto 2012 / Novembro 2012 / Janeiro 2013 / Fevereiro 2013 / Abril 2013 / Junho 2013 / Julho 2013 / Setembro 2013 / Dezembro 2013 / Março 2014 / Abril 2014 / Maio 2014 / Junho 2014 / Outubro 2014 / Abril 2017 /


Powered by Blogger

Assinar
Postagens [Atom]